Quanto tempo até ao futuro?

Sei que o futuro será melhor. Mas, e tenho a certeza que a Estela está comigo nesta pergunta, quanto tempo demora o futuro a chegar?

A minha sobrinha diz covid-janob. Enquanto, apesar de fazer parte de uma geração absolutamente tecnológica, segura no telemóvel como qualquer avô. O queixo em primeiro plano, quando aparece, a testa e os olhos a liderar como quem liga a câmera da frente sem querer.

“Tia, não posso sair de casa por causa do covid-janob.” Mas quando lhe pergunto se tem saudades do colégio – JAMAIS!             

Pois é, Estela! Estamos em casa por causa do covid-janob. Agora menos, procuramos um novo normal com os sorrisos tapados. O mundo é provisoriamente dos olhos que falam.          

Mas sobre este novo normal, algumas questões: quando é que poderemos dar mergulhos no mar? Quando é que vamos poder celebrar o amor dos nossos grandes amigos que escolheram este ano atípico para casar? Gostava de beber com a minha amiga Maria e vê-la dançar em cima dos sapatos novos que prometiam um dia de Verão quando o, ainda tímido Outono, já abriu as portas. Gostava de estar com a Bianchi sem medo de a abraçar. De mostrar à Rafa como ela me faz rir sem ser com os olhos ou virtualmente. E a Carol, o nosso abacate, bem sobre a Carol nem vos posso contar! A Matilde conta os dias para pisar territórios romanos mas nós ansiamos sempre poder contar com ela nos nossos jantares! E é o aniversário da Teresinha esta semana, queremos celebrar! Além disso, temos uma das tuas exposições maravilhosas este ano? O Tommy tem de casar um dos melhores amigos dele, queremos casar a Carolina e o João Pedro e conhecer a Carolina do Muller e da Cate.          

E tudo o que parecia tão simples e banal. Como acordar de manhã cheia de trabalho, tomar um café e encontrar-me com o Bala no nosso templo de cristal virado para o mar, onde o mantra é perder calorias e deixar tudo o que for má energia para trás. Sair à pressa, cheia de looks, sacos e sonhos para descobrir ruas de novas histórias com a minha irmã. Descer a rua a pé com o Tommy, numa noite de Primavera, para irmos jantar algures. Será que algum dia o voltarei a ver marcar uma picadinha, num daqueles momentos de coração nas mãos? Quero encontros de família, ir a Porto Ferreiro, estar com os meus primos, ouvir a minha avó contar vezes sem conta como o meu avô não a largou enquanto ela não casou. E ouvi-la sempre com o mesmo entusiasmo! Levar a minha sobrinha à marginal, para experimentar os patins novos que eu e o Tomás lhe oferecemos no aniversário, com a certeza de que não estamos a fazer nada de errado.

Quando é que poderemos dizer finalmente que saímos disto? Entrar num avião uma vez por mês? Voltar a ver as minhas colegas de trabalho (influencers) para nos rirmos durante três dias seguidos e concluirmos que, realmente, não há melhor trabalho no mundo?

Não há nada como o Verão na Europa! Vamos perdê-lo? Vamos deixar as ilhas gregas desertas de amores de Verão? Deixar Ibiza perdida de danças ao pôr do sol? As cidades europeias pré-capitalização, quase só faladas numa língua? Por outro lado, a costa Algarvia será só nossa?

Não me interpretem mal. Não estou de todo a menosprezar a importância do problema, que é tão maior do que mergulhos no mar. Nem a apelar à “normalização” do que não pode ser normal. Estou a aprender, tal como vocês, a viver no novo normal. E estou feliz. Este texto está ao nível da afirmação da minha sobrinha. É um desabafo saudoso. Sei que o futuro será melhor. Mas, e tenho a certeza que a Estela está comigo nesta pergunta, quanto tempo demora o futuro a chegar?  

*As imagens em cima foram encontradas no Pinterest, se alguém conhecer as fontes agradeço que partilhem comigo para que possa identificar.

One Comment

  1. Teresinha

    Não é fácil pensar no dia em que vamos poder pôr tudo para trás e viver “normalmente”, sem preocupações, sem muitos cuidados. Poder estar com amigos, sem contar quantos somos, sem pensar o que precisamos levar para nos ou os “proteger”. Sem poder estar realmente perto, como nós gostamos, todas em cima uma das outras para caber na fotografia, a partilhar comida, livros, e por aí fora. Estar longe às vezes parece ser mais fácil do que estar perto. Pois assim não temos que contrariar aquilo que nos é tão natural, como estar perto.

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